A Propedêutica e a “Peleumonia” – Entre a Medicina e a Linguística

A Propedêutica ainda existe como disciplina nas melhores universidades e faculdades de medicina no mundo e do país, como a FMUSP ou na UNIFESP. Contudo está cada vez mais extinta, pois os novos professores podem não ter a técnica e vocação dos mais antigos. Anda ficando difícil fazer a manutenção de algo que é bem sensível e formador dos melhores médicos e médicas.

Na Propedêutica, é possível em apenas um gesto, o Médico detectar e entender o que sente e qual a doença tem o paciente. Ou seja, para um bom médico basta um gesto, nem é preciso palavras.

Por exemplo, se ao se comunicar, o paciente aponta o dedo indicador para o peito, nota-se pela sutileza do gesto, pela delicadeza da linguagem não-verbal, que é uma dor aguda, intensa, que alfineta. Ou se ao falar da dor, o paciente fecha a mão e coloca em cima do peito, pode ser um risco iminente de ataque cardíaco.

Isto é uma lição poderosa! O gesto pode dizer mais que mil exames! Pode dizer mais que mil equipamentos! Pode dizer mais que mil gramáticas e horas sentado em uma carteira de cursinho para Medicina!

A Linguística usa a mesma arte da Propedêutica Médica. Notamos no gesto do dizer, na escolha da palavra, na seleção lexical do sujeito histórico, na ortografia do bom cidadão, não só o caráter da pessoa, como sua formação humana e familiar, sua vocação para a escuta e cuidado com o outro.

EXEMPLO:
Link para a reportagem G1 da época:http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2016/07/medico-debocha-de-paciente-na-internet-nao-existe-peleumonia.html

Vamos a um fato que ocorreu em Julho de 2016, há quase dois anos, na cidade de Serra Negra, interior de São Paulo. Um médico publicou em uma rede social uma foto sua com um cartaz dizendo: “Peleumonia e Raiôxis não existem”. Fato grave! Foi um ato de preconceito linguístico e má formação de caráter ético e profissional! Embora, o mesmo médico jovem, dias depois de toda a repercussão negativa, pediu desculpas também pelas redes. Menos mal, pois mostra que todos estamos em processo de formação. E não é um tribunal de internet que deve retirar o diploma de um médico, mas pode ser a internet uma ótima ferramenta para descobrir certos preconceitos e má-formação de caráter, ou mesmo de um grave preconceito linguístico.

POR QUE HOUVE PRECONCEITO LINGUÍSTICO, ALÉM DE OUTROS.

Na Linguística, o termo “Peleumonia” existe a partir do momento que é dito (ganha materialidade sonora e sígnica), como existe o termo “Raôxis”, pois os dois são gestos de quem se comunica com o que tem e busca solução no outro para aquilo que não entende como dor ou cura.

Não é preciso ser Doutor em Linguística e Filosofia da Linguagem para saber disso, como eu. Só é preciso ser humano, usar a escuta, usar o coração, usar a educação e o respeito.

No dicionário, lugar da Língua morta, estática, petrificada, a palavra “peleumonia” ainda não está, pois é no dicionário que a exclusão do que é vivo se faz. Pois é preciso ser muito mais vivo para entender que o que dicionariza a palavra é o uso vivo dela, se matamos a palavra no seu nascedouro, matamos também nossa capacidade de desenvolver um entendimento entre as pessoas. Matamos a Língua em seu nascedouro – na sua fonte, na sua poesia, na “língua viva do povo/ na língua gostosa do povo” (Manuel Bandeira). Matamos seu caráter – sua comunicação.

A partir do momento em que Médicos julgam (precoceituosamente) seus pacientes pelo modo com que eles falam e não pelo modo como eles se sentem na DOR, na hora mais frágil do ser, perde-se a noção do que é a Medicina verdadeira. Mancha-se toda a formação médica. Medicina vira Status e não mais Vocação.

Saber a Propedêutica das coisas separa o joio do trigo, separa o status da vocação, separa o linguista do mero gramaticicista, separa o preconceituoso daquele que busca a ética até nos gestos de um suposto erro ortográfico.
Medicina não é status, mas vocação, assim como língua não é só estrutura, mas intenção.

Por: Fabrício César de Oliveira, Doutor em Linguística e Filosofia da Linguagem pela UFSCar

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